A Bru fez cirurgia bariátrica e, nesse processo, acabou descobrindo muito sobre como se relacionava com o próprio corpo. Nesse relato, ela conta um pouco mais sobre isso, dá uma olhada:

“Desde que eu me conheço por gente, eu sou gorda. Fui uma criança “gordinha”, uma adolescente gorda e uma adulta obesa. Passei anos da minha vida sendo preterida e precisando me provar sempre, tudo isso por conta do meu peso.

Eu sei – e você também – que vivemos num mundo aonde a aparência conta muito mais e, para uma pessoa que pesava 150kg, era difícil não me sentir indesejada.

Há exatamente 2 anos, eu tomei a decisão que eu achava que mudaria a minha vida: vou fazer a cirurgia bariátrica. Já não estava mais aguentando toda a pressão, todos os xingamentos, todos os olhares quando chegava nos lugares, todas as roupas não compradas porque não me serviam.

Operar foi uma decisão que veio facilmente na minha cabeça. Eu pensava “assim que eu operar, tudo vai mudar, minha vida vai melhorar 100%” e hoje, depois de 2 anos e 60kg mais magra, eu percebi que não é tão simples assim.

As pessoas não me olham mais quando passo em uma catraca esperando que eu entale, algumas roupas já me servem, mas não sou 100% feliz e OK com o meu corpo como eu achei que eu seria após a bariátrica.

É a coisa mais clichê do mundo, mas só depois que eu operei que eu percebi que o problema nunca foi o peso que eu tinha, e sim como as outras pessoas tinham sempre algo a dizer sobre o meu corpo e como eu permitia que elas fossem invasivas.

Você ter que ouvir coisas do tipo “você é tão bonita de rosto, pena que é gorda”, “você daria uma ótima namorada se emagrecesse um pouco”, “você vai morrer sozinha porque ninguém gosta de gordo” (isso ouvi de um médico), faz com que você ache que ser gordo realmente é o problema, que o peso que você carrega é o causador de todo mal da sua vida… mas não é.

Atualmente, eu perdi 60 kg e, quando se perde essa quantidade de peso, o seu corpo fica com marcas, com flacidez, com memórias e lembranças. Eu tenho o excesso de pele, estrias e todas as coisas que mulher nenhuma mostra no facebook e no instagram da vida. Por conta disso, eu voltei ao estágio da minha vida que eu vivi enquanto tinha 150kg: me privar de fazer as coisas por conta da minha aparência.

Apesar de saber que isso não tem sentindo nenhum, que as pessoas fazem tudo: dançam, cantam, atuam (principalmente gordos), eu ainda ligo minha felicidade 100% ao meu peso.

“Ah, quando eu ficar magra vou começar a fazer aula de dança”, “quando eu emagrecer e tirar esse excesso de pele eu vou fazer a viagem da minha vida”, “quando eu tiver a barriga chapada, vou usar aquele vestido que eu vi na loja.” E por aí vai.. Tá vendo o quão absurdo é tudo isso?

Eu jurava que, depois de operar, eu não ia mais me preocupar com o peso. Afinal, eu fiz a cirurgia, certo? E mesmo sabendo que a bariátrica não é milagre, eu realmente pensei que não passaria 90% do meu tempo pensando nisso (Só que não). Eu ainda me acho inadequada, ainda permito que as pessoas sejam invasivas, e ainda me importo demais com o que as pessoas pensam do meu corpo.

A cirurgia me ajudou em muitas coisas sim, não posso ser hipócrita e dizer que não. Contudo, o que pude perceber é que mudar o seu corpo enquanto a sua mente te sabota nunca te fará feliz!

Hoje, com as coisas que já ouvi, as pessoas que estou conhecendo e os amigos que me ajudam (oi, Nai!), eu finalmente estou conseguindo perceber algo que parece muito fácil quando dito, mas tão difícil de colocar em prática: se amar faz com que a opinião dos outros seja irrelevante! Se amar em um mundo que constantemente diz e que te faz engolir goela abaixo que você não deve gostar de si, que você não tem esse direito, é difícil.

Entender que não é sobre o meu corpo, que ser gordo não é o problema, que tá tudo

bem se eu não usar uma calça tamanho 42, é algo que estou aprendendo diariamente. Afinal, passei 24 anos da minha vida sendo condicionada a não ter o direito de me amar do jeito que eu sou.

Só que também está tudo bem se amar e mesmo assim querer mudar alguma coisa em você! Seu corpo é sua casa, é onde você vive e viverá todos os momentos bons ou ruins, e uma casa não precisa se manter igual sempre.”

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