Da primeira vez que a Naiara me convidou pra escrever esse texto, acabei fazendo sete paginas de desabafo. Falando sobre todas as minhas (muitas) memórias doloridas, das minhas dificuldades de relacionamento, da rejeição, de todas as cicatrizes que tenho por uma vida pautada em ‘’Nathalia precisa emagrecer’’: um belo textão, pessoal, confuso, caótico… acabei resolvendo colocá-lo na gaveta.

Já que a ideia era falar da minha experiência pessoal, resolvi abordar outra coisa: sobre como, de um tempo pra cá, tenho começado a me ver de outra forma. Uma nova percepção.

Eu fui uma criança gordinha. Hoje, eu sou uma adulta obesa. Sim, obesa. Os motivos que fizeram com que eu passasse de um estágio ao outro não vem ao caso – e é exatamente aí que quero começar meu raciocínio.

Eu vivo com a constante necessidade de justificar o meu peso: é como se eu pedisse desculpas e precisasse justificar os meus quilos e a minha existência pra todo mundo, o tempo todo. Bizarro, né? Mas é real.

Eu cresci ouvindo que eu precisava emagrecer, que eu seria linda se eu fosse magra; que eu precisava me preocupar com a minha saúde, que eu não devia cortar o cabelo curto porque meu rosto ia ficar redondo e ia parecer que eu era mais gorda; que eu precisava perder peso pra ser melhor no futsal ou na equitação, que eu deveria me vestir assim, deveria comer assado (rs), etc.

Eu sei que é comum as pessoas darem pitaco em tudo. A questão é que, combinado com o meu sentimento de rejeição constante e a vontade de me sentir adequada (ao que, não é mesmo? Nunca saberemos), de me sentir boa o bastante, a frequência desse tipo de comentário invasivo fez com que eu achasse normal as pessoas emitirem opiniões sobre o meu corpo sem que eu tivesse perguntado ou dado essa abertura – e, com isso, acabei desenvolvendo a necessidade de pedir licença pra existir no meu querido corpo, um dia após o outro. Me dar conta disso foi o primeiro passo pra começar a me perceber de uma outra forma.

O passo seguinte foi chegar à conclusão que, no fim das contas, eu dou sim abertura pras pessoas serem invasivas: eu nunca coloquei limites nesse tipo de coisa. Eu sempre aceitei, dolorida, a razão absoluta delas: estavam certas. Eu abaixava a cabeça e concordava, aceitando que existia uma versão incrível de mim que ia milagrosamente aparecer com a diminuição das minhas células de gordura.

Isso me torturava (e ainda me tortura) diariamente: a ideia, surreal mas enraizada, de que eu só tenho valor a partir do momento em que o eu gorda dá lugar ao meu verdadeiro eu, que está escondido embaixo da minha capa de gordura, a.k.a A NATHÁLIA REAL OFICIAL. Magra, obviamente.

Graças ao bom Deus da internet, a muita terapia e a alguns santos amigos que tiveram e tem a paciência de lidar comigo e com as minhas crises com relação a isso (e não só), eu comecei a me dar conta dessa absurdidade e a – pasmem – colocar limites nas pessoas. A falar que não, não é ok você sair supondo que eu vivo e respiro coca-cola, McDonalds e doce todo dia; que pode ser que eu queira voltar a fazer esportes porque eu gosto e me sinto bem, e não necessariamente porque eu quero emagrecer.

Aprendi que se tem uma coisa que eu não sou é obrigada, nem a ficar calada, nem a rir de piada sem graça, só pra não parecer a chata (já é gorda, né, pensa se é chata?!?!?!) que leva tudo a sério demais; que eu tenho todo o direito de ficar puta quando alguém começa do mais completo a absoluto nada a me dar uma aula de como a obesidade e o sobrepeso podem ser problemáticos etc etc causar diabetes etc etc infarto etc etc, como se eu vivesse na bolha rosa de um grande bubbaloo tutti-frutti e não tivesse ouvido isso 9483924732 vezes antes, não soubesse de todas essas coisas, não sentisse diariamente o peso (rs) que a obesidade tem na minha vida e, acima de tudo e mais importante, como se aquela pessoa soubesse mais da minha saúde de verdade do que eu. Gente, não sejam essa pessoa, porque passa vergonha, viu?

É engraçado o tanto de gente que se sentiu ofendida desde que comecei a colocar determinados limites.

Afinal de contas, são muitos anos dando palpite sem precisar parar pra pensar se aquilo não foi muito, se não está machucando ou criando neuras naquela pessoa que – pasmem de novo!– é exatamente isso: um ser humano como qualquer outro, com neuras, problemas, capacidades, características, personalidade própria, e tudo o que nos caracteriza como indivíduos, que graças à Deusa é muito mais do que só a forma como as pessoas nos veem.

Mas, no fim das contas, é uma mudança grande de comportamento, e é normal que algumas pessoas fiquem perdidas. Eu, por outro lado, estou mais segura do que nunca. Tem sido uma experiência difícil (afinal, a autocrítica também é muito forte, e haja neura), mas muito gratificante, isso de me forçar a pensar em mim mesma como um ser humano completo. Eu não sou só esse corpo: eu sou corpo também.

Nesse processo, de brinde veio uma consciência diferente, uma coisa nova pra mim: o sentimento de gratidão a esse meu corpo, que hoje é gordo, lindo, loiro e branquelo.Ainda que ele não esteja nesse momento no máximo das suas potencialidades ou na forma que eu gostaria, eu não poderia me sentir mais feliz com ele.

Porque é a primeira vez na minha vida que eu o percebo como ele realmente é: um instrumento tão completo, tão complexo, que dá voz e forma ao eu que tem dentro de mim. Que permite que eu faça uma trilha memorável na Chapada dos Veadeiros, que me dá voz pra dizer o que penso. Que me traz a alegria besta de uma pelada de futsal com as amigas, que dá arrepios de aconchego quando eu escuto a sanfona de um forró, que me possibilita experimentar a sensação maravilhosa de tomar uma cerveja gelada no fim do expediente.

Esse corpo maravilhoso que me lembra todo dia que eu estou viva, que eu estou aqui, nessa terra, que sou parte dela.

E que, mais do que o direito, eu tenho o dever de existir nesse mundo fazendo jus ao que me foi dado sem defeitos: dançando, transando, rindo, abraçando, jogando bola, cantando, chorando, sendo útil ao próximo e, principalmente, caminhando de cabeça erguida, com a consciência e a responsabilidade de saber que o valor que eu tenho está ligado a quem eu sou – e não a quantos quilos eu carrego nas costas.”

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