Hoje o relato é da Dessa! Ela tem 19 anos e enfrenta a anorexia nervosa há 3. A Andressa ainda está em tratamento, aprendendo todos os dias a lutar contra o “padrão irreal e inalcançável” (nas palavras dela) e motivar outras mulheres a perceberem que não estão sozinhas nessa.
Dá uma olhada:
“Minha anorexia provavelmente partiu da ortorexia, meu gatilho foi esse: comecei uma reeducação alimentar e passei a estudar alimentos, contar calorias, e fui ao extremo.
Me recusava a comer qualquer prato que não fosse preparado em casa (e, de preferência, feito por mim), só comia alimentos que eu sabia de onde vinham e como tinham sido preparados. Não comia industrializados, tinha medo de conservantes. Passei a recusar convites pra sair, ou quando me ofereciam algo para comer.
Cheguei ao ponto de ter medo até de comer fruta, pesar todas as refeições, controlar minha alimentação por aplicativos e comer só 400 calorias em um dia.Isso foi em 2016. Com a reeducação, eu comecei a emagrecer, mas nada demais. Fazia cursinho e passava o dia sem comer, porque me esquecia enquanto estudava. Cheguei a desmaiar por não comer quase nada algumas vezes, mas não via problema nisso.
Em 2017, a doença começou a falar mais alto. Eu estava em um relacionamento abusivo, com muita briga, me afastei dos amigos, então ficava sempre muito triste e em isolamento. A doença, de alguma forma, me segurava naquele momento. Em 2018, a doença atingiu o auge. Nessa época, pedi ajuda a uma tia porque não sabia o que tava acontecendo, mas tinha certeza que tinha algo errado.
Eu sempre gostei de exercício físico, fazia esporte, fiz dança, só que percebi que passei a me exercitar de forma compensatória e extrema. Ia todos os dias para a academia e aos domingos, quando não abria, eu me exercitava em casa… tudo pra compensar o que tinha comido. Me obrigava a fazer 100, 200 abdominais toda noite e só dormia se tivesse feito o exercício. Isso fez com que eu emagrecesse muito em pouquíssimo tempo.
No início, o meu corpo não era um problema, até que começou a me incomodar.
Eu tinha técnicas pra me medir, usava fita métrica, media a ‘grossura’ do braço com a mão (meus dedos tinham que fechar em volta do meu braço), me pesava várias vezes ao dia. Se eu tivesse ‘engordado’ entre uma pesagem e outra, parava de comer. Se tivesse emagrecido, pensava ‘ah, então eu consigo emagrecer ainda mais’. Dependendo do peso que a balança mostrava, eu me permitia comer. Só que esse peso era cada vez mais baixo, nunca estava satisfeita. Cheguei a pesar 35kg (tendo 1,68m de altura!).
Lembro que gostava da sensação de me sentir tonta após exercícios pesados e pensar ‘agora sim, eu posso comer’ ou sentir meu estômago retorcer de fome, comer um pedaço de melancia, por exemplo, e me considerar satisfeita.
E eu não via isso,  não enxergava quão magra eu tava. Mesmo incomodada por sentir meus ossos quando me sentava ou deitava em algum lugar ou tendo dor quando andava, por sentir os ossos do calcanhar quando pisava no chão. Mesmo que, durante a época mais magra, eu sentisse um frio absurdo e tremesse o tempo todo. Mal conseguia tomar banho por causa desse frio, isso foi muito marcante pra mim, a dificuldade era muito grande.
Ainda assim, achava que estava bem, ainda que com o cabelo caindo, sem menstruar por um ano, tendo unhas fracas, tendo insônia, me sentindo fraca o tempo todo, porque, na minha cabeça, continuava vivendo ‘normalmente’.
Depois de pedir ajuda, passei a me consultar com psiquiatra, que me indicou a psicóloga e a nutricionista. Mas não conseguia aceitar que tava doente. O processo foi longo e bem difícil porque, na minha cabeça, eu estava bem. Olhando pra trás, eu vejo que era um zumbi, que eu tava existindo e não vivendo, era uma vida que não vale a pena viver: eu vivia em função da doença.
 
Eu ainda estou em tratamento, internada na ECAL, que é a Enfermaria de Comportamento Alimentar do Hospital das Clínicas (em São Paulo), porque, mesmo querendo melhorar, eram muitos altos e baixos. Melhorava um pouco, piorava bastante. Eu burlava o tratamento, jogava comida fora… então foi melhor ficar internada.
Aqui faço terapia, tenho aulas de nutrição, fisioterapia focada em imagem corporal (que ajudou a diminuir minha distorção de imagem, que hoje está em nível leve) e tenho contato com outras meninas que também estão em tratamento. Hoje, como já estou melhor e perto de ter alta, posso passar os finais de semana de licença: vou para casa nas sextas à noite e volto aos domingos.
Se eu falar que tô 100% satisfeita com a minha aparência hoje, vou estar mentindo. Não estou totalmente feliz com meu corpo nesse momento e ainda estou em tratamento, então espero que melhore. Tento aceitá-lo cada dia mais e tratá-lo com mais gentileza, porque não quero voltar a viver em função da doença.
Pelo menos, já não recorro a nenhum comportamento problema, como me recusar a comer, por exemplo (mesmo ainda tendo uma voz na minha cabeça me dizendo que não preciso comer). Com o tratamento, percebi que vivia presa dentro de mim mesma.
É preciso notar quando a gente chega num nível de insatisfação muito grande com nós mesmas e procurar ajuda. Ninguém merece passar por isso sozinha e ninguém escolhe isso. Se você está começando a ter essas ideias, busque ajuda!”

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