Meu nome é Dayane, tenho 27 anos (embora não pareça – melanina, tinhamu! Rsrs) e estudo medicina na Universidade do Estado de Minas Gerais. Sim! Medicina! Não é Enfermagem, nem Biomedicina. É M E D I C I N A!! Algo contra esses cursos que mencionei? Nada! De forma alguma! Muito pelo contrário! Até por que, reconheço o trabalho da equipe multidisciplinar como sendo essencial, especialmente quando se trata dos cuidados para com o paciente.

Enfim, fiz questão de enfatizar, pois, volta e meia, quando me perguntam que curso faço, ao responder, é bem nítido o espanto das pessoas. Já teve quem perguntou: “Medicina mesmo? De verdade?!”. Não respondi: “Não, de mentira.” Por que seria deselegante da minha parte. Quando não perguntam, inferem qual curso eu faço. E adivinhem só! Nunca é medicina.

E “qual o motivo de toda essa minha indignação?” você deve estar se perguntando. É porque, no país em que vivemos, ver uma mulher, negra, estudando medicina – um curso completamente elitista, cursado praticamente apenas por brancos – causa espanto, pois não é algo “normal”. A sociedade não está acostumada com isso.

E mesmo vindo de uma família de quase totalidade de negros, tanto do lado materno quanto do paterno, e também nunca ter sido consultada por NENHUM médico preto, eu só fui me dar conta disso quando entrei na Universidade, no início do ano passado, pois comecei a ter contato com outros negros,conscientes e empoderados (o que não tive durante os seis anos em que tentei medicina, porque sabemos quem é que tem acesso a cursinhos particulares aqui no Brasil – os brancos, pra deixar bem claro).

E foi a partir daí que muita coisa começou a fazer sentido pra mim. Comecei a entender o porquê de as pessoas sempre me falarem (principalmente no cursinho) que eu não tinha “cara de médica”. Óbvio que eu não tinha cara de médica. Assim como também não tinha cara de princesa, nem meu irmão e meus primos nunca tiveram cara de príncipe, muito menos de anjo.

Isso tudo porque sabemos da história do nosso país, da escravização à qual o povo negro foi submetido. Sabemos que nossa sociedade foi construída em cima de um padrão eurocêntrico, no qual o padrão de beleza pregado é o ser branco, de cabelo liso, de preferência de olhos claros. E eu, meus irmãos e meus primos estávamos totalmente fora desse padrão.

E foi a partir daí também que eu comecei a entender o porquê de nunca ter sido a primeira opção dos homens. Na verdade, nem opção eu era, com o argumento de: “Ai, é que eu prefiro mulheres brancas. Não sei por que. Sei lá, é questão de gosto, sabe?”. Mas estamos falando de “questão de gosto” em um país onde, desde a nossa infância, a referência do que é belo, desejável, sempre foi o padrão europeu.

A mídia sempre deixou isso bem claro (literalmente). Os adultos que hoje preferem se relacionar com homens e mulheres brancos são as crianças que assistiam às apresentadoras de programa infantil, paquitas, príncipes e princesas brancos, loiros e que, no natal, aniversário, dia das crianças…  ganhavam bonecas e super heróis brancos.

E essa mesma mídia mostrava para essas mesmas crianças, na novela, nos filmes, em todos os lugares, os negros como empregadas domésticas, babás, motoristas, seguranças, porteiros… Essas profissões são dignas e merecem respeito? Sim! Como qualquer outra. O que me incomoda é o fato de os negros sempre serem colocados em posição de servidão. Você quer se casar com quem? Com a patroa branca da novela ou com a  empregada preta dela? Resumindo, nosso gosto foi construído.

Nós, negros, nunca fomos representados em espaços de poder. O máximo que conseguimos (antes não tivéssemos) foi ver nosso corpo nu, pintado e hipersexualizado nas televisões de todo o país, no carnaval, com a nossa querida GLOBELEZA, que não só passou a reforçar a objetificação do corpo negro, mas também passou a ser motivo de “elogio” às meninas negras.

“Nossa, você é tão bonita. Tá parecendo a globeleza”. Uma afirmação dessa faz com que a criança cresça pensando que o que ela tem de melhor é o seu corpo, que assim que alcançar a puberdade vai ser cheio de curvas, da ‘cor do pecado’, e o que essa criança vai desejar, inconscientemente, é ter o poder de sedução, que, naturalmente, os homens inferem que toda negra tem, mas que só serve para ser usado algumas vezes.

Porque mulher negra não foi feita pra casar, não. Mulher negra é só pra você curtir. Casamento mesmo é com a branca, que é moça de respeito.

Eu tive o desprazer de sentir isso na pele, quando me relacionei com um homem branco por cerca de cinco anos. Não tínhamos o hábito de ir a lugares públicos. Nunca questionei por que. Até que um belo dia ele resolveu falar da “barreira” dele – era esse o nome que ele dava. Ele me disse que sempre gostou de mulheres negras, que até preferia mulheres negras a brancas, mas que não tinha CORAGEM de sair de mãos dadas com uma. Sim! Ele usou essas palavras. Sair de mãos dadas com uma mulher negra na nossa sociedade é um ato de coragem? Sim! Infelizmente sim. E esse é um pensamento compartilhado pela grande maioria dos homens brancos e pretos também, pois todos nós crescemos nessa mesma sociedade racista.

Isso explica a solidão da mulher negra e o grande número de mães solo negras. Explica também a minha baixa autoestima, que desde que eu me entendo por gente me acompanha. Explica o porquê de eu ter me submetido por tantos anos a tratamentos dolorosos para alisar o cabelo. Explica por que eu odiei, até pouco tempo atrás, minha cor, meu nariz grande e meus lábios grossos. Explica também o fato de eu sempre achar que nunca seria nada, que eu nunca seria ninguém. Explica o porquê de eu sempre ter achado que determinadas cores de roupa, de batom e de esmalte não eram pra mim. E explica, principalmente, o fato de eu ter sido uma criança e uma adolescente tímida, calada, que tinha pavor de ir à escola e enfrentar o bullying e a rejeição de todos, principalmente dos meninos.

O meu processo de auto aceitação foi longo. Na verdade, tem sido, pois, como disse, é um processo. Eu realmente fui me aceitar e me identificar como mulher negra e aceitar o meu cabelo crespo, assim que entrei na Universidade. Faz pouquíssimo tempo.  Ainda estou aprendendo os desafios e as consequências de ser mulher e negra na nossa sociedade, mas só de estar ocupando um espaço que até ontem meu povo nem sonhava que um dia iria ocupar, já é um  grande passo.

Estudar medicina sem ter “cara de médica” é um desafio. No hospital eu sou todas as profissionais, menos a médica, principalmente quando vou de turbante,mas sigo firme, pois a faxineira preta, a cozinheira preta, a costureira preta, a gari preta, a empregada preta, a professora preta, o porteiro preto o segurança preto, e os filhos deles precisam saber que profissão não é herança. Que eles podem sim ser o que quiserem – advogados, médicos, engenheiros, dentistas… que esses espaços são nossos também. Sinto-me, de certa forma, responsável por fazer isso acontecer.

E hoje eu descobri que eu nunca fui tímida, eu fui silenciada. E o mesmo não deve continuar acontecendo com nossas crianças. Elas devem aprender, desde cedo, que têm todo o direito de falar, de se expressar e que ninguém pode calá-las ou falar por elas.

Sigo com o intuito de levar representatividade, pois ela importa, e muito. E pode mudar o futuro de muita gente. E de pouco em pouco nós vamos melaninizar todos os espaços. Porque se a coisa tá preta, a coisa tá boa!

Leave a Reply