A história de hoje é da Ariel, mulher trans que passou pela transição há 7 anos. Ela conta um pouco sobre como os padrões de beleza e a noção que temos de feminilidade afetou esse processo.

Confira:

Olha, eu comecei a transição aos 18 anos (tenho 25 hoje), mas a primeira vez que eu tive a noção de que era diferente foi aos 6, quando falei pros meus pais ‘eu quero ser menina’. Tinha uma amiga na escola e dizia pros meus pais que queria ser como ela, ter o cabelo longo igual ao dela e usar short-saia como ela usava.

Sendo filha de pastor, foi muito difícil pra minha família aceitar. Ouvi deles que era errado falar isso, que eu iria pro inferno, então foi uma situação bem delicada. Por isso, não falei mais sobre o assunto até os 18 anos, porque sabia que era pecado falar a respeito.

Aos 15 anos, eu ainda me sentia diferente das outras pessoas e ficava buscando uma definição para o que eu era. Eu sabia que gostava de homens, me diziam que ‘se eu gostava de homem e queria ser mulher, então eu era gay’, então me conformei que era apenas isso.

Quando fiz 18 anos, eu descobri o que era ser trans, que é a questão de não se identificar com o seu gênero de nascimento, querer fazer a transição e adequar seu corpo com sua percepção e pensei ‘É isso, eu sou trans! Eu não quero ter essa aparência de menino, nunca quis e posso finalmente adequar meu corpo ao que tenho na minha cabeça, no meu coração.’

Falei com meus pais e eles não receberam da melhor forma, então saí de casa. Depois de 2 semanas, eles me procuraram, tentando resolver a situação. No início, foi bem complicado para eles lidar com tudo isso, com todas as mudanças corporais, a mudança de pessoa. Me chamavam ainda pelo nome antigo e por pronomes masculinos. Demorou anos até eles se acostumarem que eu sou a Ariel, a FILHA deles.

E no início do processo, eu tinha muita dificuldade me ver como uma mulher bonita. Principalmente porque ainda tinha características mais marcantes masculinas. Sempre achei meu nariz muito grande, meu queixo largo, e era cismada com isso. Pra mim, era essa uma questão que me fazia pensar ‘como vou ser vista como uma mulher tendo esses traços, que são tão masculinos?’

Fiz terapia para me ajudar com essa situação e o que aprendi é que tem algumas coisas que não podem ser mudadas do dia pra noite, então o que consegui fazer foi encontrar outras referências com essas características e ver que existem sim mulheres com esses traços. Vi que existem mulheres com nariz grande, queixo largo, existem mulheres altas… Lembro que sempre que uma mulher alta entrava no metrô, por exemplo, eu me sentia super confortável por não ser a única. Ou quando via uma menina que tinha nariz grande, eu me sentia melhor comigo mesma.

Durante todo o processo, as pessoas questionavam muito sobre minha mulheridade. Ouvia coisas do tipo ‘ah, agora que você é mulher, você tem que se maquiar’ ou ‘você tem que se depilar’, ‘tem que estar sempre linda’.

Essas projeções acabaram me influenciando. Durante um período, eu só andava de vestido. Quando bati o martelo que iria começar a transição, eu raspei a cabeça e deixei o cabelo crescer junto com o processo. Conforme a transição ia evoluindo, meu cabelo foi evoluindo e crescendo junto. Isso me trazia a ideia de que eu era mais vista como mulher, como mais feminina e chegou no ponto do meu cabelo chegar na coxa.

Deixei ele o mais longo que pude, porque existe a ideia de que mulher tem que ter cabelo grande, e por mais que eu goste do meu cabelo longo, chegou um momento em que eu quis cortá-lo.

Só consegui fazer isso depois de 5 anos (no ano passado), mas ainda com o medo de ser vista como homem de novo. Cortei o cabelo no meio das costas e, para minha surpresa, ninguém questionou minha identidade de gênero por ele estar mais curto. Esse ano, cortei ainda mais, pouco abaixo dos ombros e notei que as pessoas não questionaram minha mulheridade por isso. Percebi que por mais que o cabelo trouxesse uma sensação de feminilidade pra mim, não é ele quem dita se sou mulher ou não. Entender isso foi uma lição!

Muita gente ainda tem a ideia de que, por eu ser trans, é preciso que eu seja o exagero da feminilidade, pra provar 24h por dia que sou mulher. E é complicado porque tem dias que eu não quero maquiagem, não quero me arrumar, quero ficar desarrumada de moletom, mas se eu saio na rua assim, questionam minha feminilidade e minha mulheridade.

Se uma mulher cis sai de calça jeans e moletom, ela pode até ser chamada de preguiçosa, ouvir que não se cuida, mas ninguém vai dizer que ela não é mulher. E isso acontece comigo. Já passei por situações assim, de estar de short e camiseta e ter que ouvir ‘ué, mas você não é mulher agora?’

Questionam se eu sou uma mulher de fato, se eu sou quem digo ser, há a exigência que eu esteja em cima do salto o dia todo, sempre maquiada, pronta para um baile de gala e as coisas não são assim. Nem sempre eu quero ser vaidosa. Eu queria poder viver de calça jeans, camiseta e tênis, porque acho lindo, mas isso gera um questionamento, comentários. Quer dizer que agora mulher só é mulher de vestido ou saia?

Ter que afirmar minha mulheridade o tempo todo é desgastante, eu preciso estar sempre batendo na tecla de que existem vários tipos de feminilidade, que não preciso de salto e maquiagem para ser mulher.

Isso faz com que eu mesma não me sinta tão bonita quando não estou arrumada… nesses dias em que sou pouco vaidosa, acabo me sentindo feia, por causa de todo o questionamento que minha aparência gera. São dias mais difíceis. E são raras as ocasiões em que me olho no espelho de cara limpa e me acho bonita. Lutar com essa ditadura da beleza da mulher, sendo uma mulher trans, não é fácil. Principalmente não sendo super vaidosa como se espera que a gente seja.

Os hormônios que tomo foram e são ainda uma forma de me sentir mais bonita. Quando estou tomando, percebo meus traços mais femininos. Quando não tomo, seja por questão financeira ou pelos efeitos colaterais que tenho com o uso, eu me sinto feia. A impressão que tenho é que meus traços ficam mais masculinos e que eu perco um pouco da feminilidade.

Hoje em dia, me sinto hoje mais confortável com minha aparência, minha beleza, mesmo querendo mudar algo em mim de vez em quando. Já me comparei muito com outras meninas, já quis ser igual à mulher X ou Y e, por mais difícil que tenha sido digerir isso, entendi que nós não somos iguais, somos diferentes, temos estilos diferentes e que está tudo bem.

Eu tenho a beleza de uma mulher trans, portanto tenho sim certas características mais marcantes, mas isso não me faz menos mulher ou menos bonita. Depois de 7 anos de transição, eu consigo me ver como a mulher que eu sou.

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