O padrão é excludente. E isso não é novidade para ninguém!

Além de traços específicos, cor de pele, medidas corretas, tipo de cabelo, idade etc, o padrão ainda traz outro recorte: um corpo em ‘perfeito funcionamento’ – sem deficiências ou limitações. Você já parou para pensar como é o processo de auto aceitação em casos assim?

O relato hoje é da Ane. Ela tem síndrome de Grebe e conta pra gente como desenvolveu a visão do ‘seu próprio padrão’ e vive feliz e muito bem resolvida com seu corpo, obrigada.

Dá uma olhada:

“Eu tenho síndrome de Grebe, é uma deficiência muito rara no Brasil. Ela consiste no encurtamento dos membros inferiores e superiores. É uma deficiência muito semelhante ao nanismo, mas as diferenças estão nos membros e nas mãos e pés.

Nasci com a síndrome, mas o diagnóstico correto só veio aos 19 anos, já que a vida toda me disseram que tinha nanismo.

Para surpresa de muita gente, eu sempre lidei muito bem com a deficiência, principalmente pelo modo como fui criada. Meus pais me trouxeram isso desde muito cedo, me disseram ‘você é assim e ponto, tu não vai ser igual a todo mundo’.

Também acho que me acostumei com a ideia porque sempre fui muito exposta às pessoas e situações, o que me ajudou a aceitar o meu padrão. Participei de muitos grupos e atividades desde pequena, talvez por uma tentativa dos meus pais de me colocar em contato com o preconceito que eu sofreria durante a vida e com as oportunidades positivas que iria me deparar.

Desde aquela época notava que causava diversas reações as demais crianças. As reações eram: ou me amam já no primeiro contato ou já demonstravam não querer brincar ou não entender as minhas limitações. Então, desde muito nova já passava por situações difíceis por ser diferente. 

Aos 13 anos passei por uma situação muito constrangedora de preconceito, acredito que esta tenha sido uma das primeiras, e passando por ela entendi que eu teria que conviver com isso em diversos momentos da vida. 

Na ocasião, uma amiga muito querida me chamou para ser dama de honra e fui alugar um vestido junto com a irmã dela, que também tinha deficiência. Na loja, encontrei o vestido perfeito e a dona disse à minha mãe que não o adaptaria para que eu usasse, pois não fazia sentido. Ela ainda questionou porque eu iria usar um vestido daqueles e a mesma coisa para a outra menina com deficiência.

Essa situação gerou muito questionamento com meus pais sobre até onde eu poderia ir com minhas limitações e o quanto eu queria lutar. O meu sonho na época era ser pediatra, até que meus pais perguntaram ‘como você quer ser médica se teria dificuldade de segurar uma criança?’

Também pensei em trabalhar com a área de suporte de computadores, mas teria dificuldade na manutenção deles. 

Então, foi onde me dei conta que deveria olhar com carinho para alguma profissão onde a deficiência não seria um desafio, e sim uma força. E foi onde a Psicologia me escolheu e fez me encontrar como uma profissional.

Hoje sou psicóloga, atuo em RH como Especialista em Diversidade e Inclusão em uma empresa de varejo. Percebo que meu trabalho é desenvolver a crítica sobre esse tema dentro das equipes, além disso contribuir para o autoconhecimento de pessoas que também fazem parte de algum grupo minorizado, que possam se questionar e ir atrás dos seus espaços.

Sair da bolha não é fácil, mas é necessário para esse empoderamento. Ser uma mulher com deficiência nos dias de hoje, é um desafio e tanto!!! É um universo cheio de possibilidades e aventuras diárias, onde você precisa ser criativa, resiliente e com bom humor para transformar sempre o limão azedo em uma bela caipirinha (e eu adoro caipirinha), porque o nosso mundo não foi pensado para quem tem deficiência.

Sobre a questão das roupas, eu passei a contar com costureiras. Muitas erraram, muitas se recusaram a adaptar peças para mim, até que achei uma de confiança. Toda roupa que compro, ela ajusta, porque já sabe meu tamanho. E também cria roupas bem diferentonas! 

E trabalhar em uma empresa de moda faz com que eu repense a moda e como posso me encaixar. Afinal moda é para todos, não é mesmo? 

Mesma coisa no âmbito da saúde, o despreparo, a falta de conhecimento e o preconceito por parte de muitos médicos. Os médicos não estão preparados para padrões diferentes. 

Um exemplo que a poucos dias passei, foi quando marquei um horário com uma ginecologista. A aventura começa desde a entrada no prédio, como os elevadores não serem adaptados, a campainha ser extremamente alta, o balcão da recepcionista, etc.

Assim como ainda há a crença por parte destes profissionais que pessoa com deficiência não tem sexualidade! E sem comentar que sempre vem algum comentário capacitista: “nossa, tu tens o rosto tão lindo que supera o resto né?!”

Nem preciso dizer que nunca mais voltei lá.

Isso sem contar no dia a dia, onde convivo com a falta de acessibilidade em tudo: elevadores, mesas, cadeiras, dias de chuva… Mas o mais incrível é ver que sempre há pessoas dispostas a ajudar e te incluir naquele meio.

Ao longo da vida, eu usei de artifícios para ser incluída em grupos e ser bem aceita pelas pessoas. Com a terapia, fui desconstruindo isso e percebendo o que era meu de fato e o que era do outro, logo fazia com que eu não fosse incluída, não por mim mas sim pelos medos, anseios e receios que os outros têm em lidar com o diferente. Sempre tive uma vida agitada com cursos, grupo de jovens, festas, alguns namorados e um forte círculo de amizade.

E é engraçado ver que ainda há muitas pessoas que se questionam “como assim ela trabalha, estuda, tem amigos, tem relacionamentos, é bem humorada, resolvida com a deficiência e tem vida super ativa? Como isso se é uma pessoa com deficiência?” 

Ainda há muitos estereótipos criados pelas pessoas ao se deparar com uma pessoa com deficiência.

Eu sou vaidosa, amo estar maquiada, bem arrumada. Uso biquíni, vou a praia, saio, namoro. Minhas noias com meu corpo são aquelas noias comuns que muitas mulheres passam, a luta contra a balança, do que com a deficiência em si.

Não deixo a deficiência me resumir. Me olhar no espelho e gostar do que vejo nunca foi uma questão. Isso é o que eu sou, é o que eu tenho, qual a dificuldade em aceitar?! Nenhuma! 🙂

O fato de eu me aceitar tão bem é porque entendo minhas dores e compreendo que elas também vão me dar muitas forças, então as uso como alavanca. O padrão é uma construção da sociedade, não é algo meu, nem de ninguém específico, então se conhecer faz com que você se sinta foda de todo jeito.

Me conhecer fez com que eu me sentisse bem dentro do meu padrão.”

 

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